Documento técnico · SCS e DRG

Informações para médicos

Mapa de evidência por indicação, critérios de seleção, taxas de complicação com fonte e referências completas. A página do paciente cobre o mesmo conteúdo em linguagem leiga e aponta para cá quando o leitor quer conferir as fontes.

Regra editorial: nenhuma afirmação de eficácia aparece sem o nível de evidência que a sustenta. A densidade da marca indica a força da evidência disponível, não a magnitude do efeito.

Mapa de evidência por indicação

A qualidade da evidência varia muito conforme a condição tratada

A: ensaio randomizado favorável
B: positiva sem controle por placebo
C: evidência fraca ou insuficiente

Nível A

Indicação com ensaio randomizado favorável.

SDRC / causalgia de membro inferior (DRG)

ACCURATE. Deer TR et al. Pain 2017;158:669–681

Sucesso em 81,2% com estimulação do DRG contra 55,7% com SCS convencional aos 3 meses, e 74,2% contra 53,0% aos 12 meses. Base da aprovação do FDA em 2016. Há ensaio randomizado que sustenta a estimulação do DRG especificamente nessa condição.

Ressalva: eventos relacionados ao procedimento foram mais frequentes no braço DRG (46,1% contra 26,3%), sem diferença nos eventos graves.

SDRC tipo I

Kemler MA et al. N Engl J Med 2000 · externa à biblioteca

SCS somado à fisioterapia contra fisioterapia isolada: evidência randomizada favorável no médio prazo.

O benefício atenua ao longo do seguimento de anos.

Neuropatia diabética dolorosa

SENZA-PDN. Petersen EA et al. JAMA Neurol 2021 · externa à biblioteca

Estimulação de 10 kHz contra tratamento clínico otimizado: ensaio randomizado favorável.

Sem controle por placebo: o comparador é o tratamento clínico.

Nível B

Evidência positiva, mas sem controle por placebo ou com achados conflitantes.

Dor neuropática de membro após cirurgia lombar (PSPS-T2 / “FBSS”)

PROCESS. Kumar K et al. Pain 2007, entre outros

Superioridade sobre o manejo clínico convencional, sem braço placebo. É a indicação mais implantada do mundo e também a que tem a maior distância entre o uso corrente e a qualidade da evidência.

Dor lombar predominante, com as ondas atuais

Kapural 2015/2016 (SENZA-RCT) · Van Buyten 2013 (SENZA-EU) · Fishman 2021 (DTM) · Mekhail 2020 (EVOKE)

Alta frequência, burst e closed-loop por ECAP mostram resultados favoráveis. O DTM registrou cerca de 84% de respondedores em 12 meses em dois ensaios randomizados. Eckermann 2022 graduou a evidência de dor como moderada pelo GRADE em pacientes sem cirurgia prévia.

Comparador ativo em todos eles: estimulação convencional ou tratamento clínico. Não placebo.

Dor isquêmica de membro e angina refratária

Revisões Cochrane. Ubbink DT et al.

Sinal de benefício, com limitações metodológicas relevantes.

Nível C

Uso corrente com evidência fraca ou desfavorável.

Dor oncológica

Cochrane. Peng L et al. 2015

Evidência insuficiente.

DRG fora de SDRC (pélvica, fantasma, pós-cirúrgica focal, axial)

Literatura predominantemente observacional

Racional fisiopatológico forte, ensaio randomizado em curso. Hoje, indicação a se discutir caso a caso e com incerteza declarada.

Traeger AC et al. Cochrane Database Syst Rev 2023

A revisão Cochrane 2023: o que ela diz e o que ela não diz

A revisão incluiu 13 estudos e 699 participantes. Na comparação com placebo aos 6 meses, encontrou ausência de superioridade, com 1 ensaio cruzado, 50 participantes, certeza moderada.

O contexto que muda a leitura: os desfechos foram avaliados sobretudo no prazo imediato, abaixo de um mês, e nenhum estudo incluído avaliou dor lombar em longo prazo, definido pela própria revisão como 12 meses ou mais. Os ensaios controlados por placebo testam predominantemente estimulação tônica clássica ou protocolos cruzados de dias, não as plataformas em uso hoje.

A revisão também recebeu críticas metodológicas publicadas, em cartas e artigos de resposta na Pain Medicine e em outros periódicos. Isso não a anula, e o achado central continua de pé; significa que ela deve ser lida como uma peça do debate, não como palavra final.

Leitura defensável: falta ensaio controlado por placebo de longo prazo com as ondas atuais, o que é diferente de evidência de ausência de efeito.

Síntese

O que dá para afirmar, por indicação

Para SDRC de membro inferior, há ensaio randomizado que sustenta a estimulação do DRG. Para neuropatia diabética dolorosa, há ensaio randomizado favorável comparado ao tratamento clínico. Para dor neuropática de membro após cirurgia de coluna, há evidência randomizada de superioridade sobre o tratamento clínico, mas sem comparação com placebo.

Para dor lombar predominante, há ensaios randomizados favoráveis com as formas de onda atuais (alta frequência, burst e closed-loop), comparados a estimulação convencional ou a tratamento clínico. O que ainda não existe é ensaio comparando essas tecnologias a placebo por prazo longo. Cenário em que a indicação é possível, mas exige seleção mais rigorosa, trial bem conduzido e conversa franca sobre incerteza.

O vínculo financeiro com a indústria atravessa quase toda a literatura da área, inclusive a favorável. Isso não invalida a terapia; exige leitura crítica, e vale igualmente para o que está publicado nesta página.

Seleção de candidatos

Critérios de inclusão e de exclusão

Convergentes com os utilizados em ensaios clínicos da área (ex.: Van Buyten 2013) e com as diretrizes de consenso sobre seleção e trial (Shanthanna 2023).

Inclusão

  • Dor neuropática (queimação, choque, disestesia, alodínia) com mais de 6 a 12 meses de evolução
  • Dor predominantemente em membro ou território definido, mais do que dor axial difusa
  • Falha documentada de tratamento clínico adequado: fármacos para dor neuropática em dose e tempo suficientes, reabilitação e procedimentos menos invasivos quando indicados
  • Diagnóstico estabelecido e causa cirúrgica corrigível descartada ou tratada
  • Condição clínica compatível com procedimento de pequeno porte
  • Capacidade cognitiva de operar o sistema e aderência ao seguimento

Exclusão

  • Instabilidade mecânica da coluna que explique a dor: problema estrutural, não de modulação
  • Infecção sistêmica ativa
  • Coagulopatia não controlada ou anticoagulação que não possa ser suspensa com segurança
  • Comorbidade psiquiátrica grave não tratada ou dependência química ativa
  • Expectativa de eliminação completa da dor
  • Imunossupressão significativa ou diabetes descompensado, pelo risco infeccioso
  • Neoplasia ativa com expectativa de vida limitada

Comorbidade psiquiátrica tratada não é contraindicação

Ansiedade e depressão são altamente prevalentes em dor crônica e frequentemente consequência dela. O que importa é o manejo estar em curso antes do implante, não a existência do diagnóstico.

Trial

Período de teste e definição de resposta

Eletrodo posicionado por punção, conectado a gerador externo, com avaliação domiciliar em atividades habituais. Registro de dor, função, sono e consumo de analgésico ao longo do período.

Na literatura, sucesso é definido como redução de pelo menos 50% da dor. Em revisões de pacientes com dor de coluna sem cirurgia prévia, a proporção que descontinuou completamente o opioide em 12 meses variou entre 16,7% e 66,7% entre os estudos, dispersão que reflete populações e protocolos heterogêneos.

Estudos qualitativos identificam a expectativa de resolução definitiva como principal determinante de insatisfação, mesmo diante de resposta tecnicamente adequada. Daí a calibração de expectativa anteceder o trial, e não sucedê-lo.

O trial é também o ponto em que boa parte das indicações é corretamente abandonada. É desfecho esperado do processo de seleção, não falha dele.

Para colegas encaminhadores

Quando encaminhar, o que trazer e o que volta para você

Quando encaminhar

  • Dor de característica neuropática, em território definido, com mais de 6 meses de evolução
  • Falha de duas ou mais classes de fármaco para dor neuropática, em dose e tempo adequados
  • Reabilitação tentada, e procedimentos menos invasivos esgotados ou não indicados
  • Causa cirúrgica corrigível descartada por imagem atualizada

O que trazer

  • Imagem atualizada do segmento sintomático: RM, ou TC quando houver contraindicação
  • Eletroneuromiografia quando disponível
  • Histórico farmacológico com doses e tempo de uso
  • Relatório de avaliação psicológica ou psiquiátrica, quando já existir

O que volta para você

O paciente retorna ao seu acompanhamento clínico com relatório da avaliação, da decisão tomada e do plano de seguimento, indicando neuromodulação ou não. O encaminhamento é para uma avaliação, não uma transferência de cuidado.

Quando a conclusão é que o caso não é de neuromodulação, o que acontece na maioria das avaliações, o relatório traz o raciocínio e a sugestão de conduta, para que você possa seguir a partir dali.

Cobertura

A estimulação medular consta no rol da ANS, com cobertura obrigatória desde que os critérios da Diretriz de Utilização correspondente estejam preenchidos. O gargalo prático é documental: diagnóstico estabelecido, registro objetivo da falha terapêutica prévia e demais requisitos da diretriz. Documentação de encaminhamento bem feita encurta bastante essa etapa.

Blackburn AZ et al. World Neurosurg 2021;154:132–143

Taxas de complicação

Revisão sistemática com metanálise sobre implantação percutânea e aberta. Complicações graves são infrequentes; complicações menores, não.

21,1%Taxa global de complicações
12,1%Relacionadas ao equipamento
6,3%Complicações clínicas
1,1%Complicações técnicas

Vigilância pós-mercado: a agência australiana registrou 520 eventos adversos relacionados a SCS entre 2012 e 2019.

Migração de eletrodo é a complicação isolada mais frequente, com 5,6% na metanálise de Blackburn, contra 3,8% de infecção, e leva à perda de cobertura e necessidade de reprogramação ou reintervenção. Antonovich 2021 compara taxas de reoperação entre eletrodos percutâneos e paddle; Babu 2013 traz desfechos comparativos entre as duas vias.

Infecção é relatada entre 2,5% e 14% conforme a série, o que sustenta o rigor com diabetes descompensado e imunossupressão na triagem.

Explante foi relatado entre 5% e 16% em revisões de pacientes com dor de coluna sem cirurgia prévia (Eckermann 2022). Nem todo explante decorre de complicação: perda de eficácia, necessidade de RM e remissão da dor respondem pela maior parte.

Reintervenções ao longo do seguimento (reposicionamento, revisão de hardware, troca de gerador ao fim da vida útil) são esperadas e devem constar do planejamento e do termo de consentimento.

Riscos específicos do procedimento incluem punção dural, sangramento, dor no sítio do gerador e, raramente, complicação neurológica.

Transparência

Declaração de conflito de interesses

Vínculos com a indústria

Consultoria e instrutoria: Abbott · Boston Scientific · Medtronic

Atuo como consultor técnico e instrutor dos três fabricantes acima, listados em ordem alfabética, deliberadamente, para não sugerir preferência. A atividade compreende consultoria técnica, aulas e treinamento de médicos, e proctoria em procedimentos cirúrgicos a convite dessas empresas.

Declaro porque a recomendação de implante é uma decisão em que o conflito importa, e porque boa parte dos ensaios clínicos da área é conduzida ou financiada pelos próprios fabricantes, o que vale tanto para a literatura favorável quanto para a desfavorável. O leitor deve descontar disso o que julgar necessário, aqui inclusive.

Responsável pelo conteúdo

Dr. Pedro Henrique Cunha

CRM-SP 212368
Neurocirurgia (RQE 92126)
Área de Atuação em Dor (RQE 921261)

Fontes

Referências

  1. Traeger AC, Gilbert SE, Harris IA, Maher CG. Spinal cord stimulation for low back pain. Cochrane Database Syst Rev 2023;3:CD014789.
  2. O'Connell NE, et al. Implanted spinal neuromodulation interventions for chronic pain in adults. Cochrane Database Syst Rev 2021;12:CD013756.
  3. Deer TR, et al. ACCURATE: DRG stimulation vs SCS for CRPS/causalgia. Pain 2017;158:669–681.
  4. Blackburn AZ, et al. SCS via percutaneous and open implantation: systematic review and meta-analysis examining complication rates. World Neurosurg 2021;154:132–143.
  5. Antonovich DD, et al. Reoperation rates of percutaneous vs paddle leads. Pain Med 2021;22:34–40.
  6. Shanthanna H, et al. Evidence-based consensus guidelines on patient selection and trial stimulation for SCS. Reg Anesth Pain Med 2023.
  7. Eckermann JM, et al. Systematic literature review of SCS in patients with chronic back pain without prior spine surgery. Neuromodulation 2022;25(5):648–656.
  8. Van Buyten JP, et al. High-frequency SCS for the treatment of chronic back pain: 24-month results. Neuromodulation 2013;16:59–66.
  9. Babu R, et al. Outcomes of percutaneous and paddle lead implantation for SCS. Neuromodulation 2013;16:418–427.
  10. Ubbink DT, et al. SCS for non-reconstructable chronic critical leg ischaemia. Cochrane Database Syst Rev.
  11. Peng L, et al. SCS for cancer-related pain in adults. Cochrane Database Syst Rev 2015.
  12. Deer TR, et al. The appropriate use of neurostimulation (NACC). Neuromodulation 2014;17:515–550.
  13. Fishman M, et al. DTM SCS: 12-month results (RCT). Neuromodulation 2021.

Externas à biblioteca do projeto, confirmar antes de citar publicamente

  1. Kapural L, et al. Novel 10-kHz high-frequency therapy vs traditional SCS (SENZA-RCT), 12-month results. Anesthesiology 2015;123(4):851–860.
  2. Kapural L, et al. Comparison of 10-kHz high-frequency and traditional low-frequency SCS (SENZA-RCT), 24-month results. Neurosurgery 2016;79(5):667–677.
  3. Mekhail N, et al. Closed-loop vs open-loop SCS (EVOKE), randomised controlled trial. Lancet Neurol 2020.
  4. Kemler MA, et al. SCS in patients with chronic reflex sympathetic dystrophy. N Engl J Med 2000.
  5. Petersen EA, et al. Effect of 10-kHz SCS on painful diabetic neuropathy (SENZA-PDN). JAMA Neurol 2021.
  6. Kumar K, et al. SCS versus conventional medical management for neuropathic pain (PROCESS). Pain 2007.
  7. Rol de Procedimentos ANS. Verificar a Diretriz de Utilização vigente para estimulação medular.